Às vezes quando, abatido e humilde, a
própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único
sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos. É então que me interrogo
sobre quem tu és, nossa senhora do silêncio, figura que atravessas todas
as minhas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos
e de cerimoniais faustosos de silêncio. Visito contigo regiões que são
talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência
e desumanidade. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja
nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas
paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que
habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos.
Eu não sei quem tu és. Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o
modo como te vejo? Teu perfil nunca é o mesmo,mas nada muda,eu digo isso
porque eu sei,ainda que não saiba o que sei. Tu não és mulher. Nem
mesmo dentro de mim evocas qualquer coisa que eu possa sentir feminina. É
quando falo de ti,e quando as palavras te chamam fêmea, e as expressões
te contornam de mulher,que eu tenho de te falar com ternura e
amoroso.Ocupas o intervalo dos meus pensamentos,e os interstícios das
minhas sensações, Por isso eu não te penso, nem te sinto.Mas o meus
pensamentos são,hoje vans de te sentir,e os meus sentimentos góticos de
evocar-te.Ah nossa senhora do silêncio,o lua de memórias perdidas, sobre
a negra paisagem do vazio da minha imperfeição, Debruço-me sobre o teu
rosto branco nas águas noturnas do meu desassossego, no meu saber que és
lua.
FERNANDO PESSOA
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